"As imagens de André França remetem à existência, à relação com o espaço e à percepção do transeunte. Suas séries são permeadas por uma consciência da separação no tempo e no espaço; as fotografias provocam uma sensação de realidade fugaz e abordam a natureza temporal de nossas vidas. Deparamo-nos com um tipo de fotografia muito direta, que França já descreveu como “um pequeno redemoinho de tempo aprisionado”. A memória é um sentido efêmero e as imagens nos transportam de volta para um tempo, não para confirmar algo mas como um lembrete daquilo que não é verdadeiro.
Nunca nos confrontamos com rostos, somente com os vestígios deixados por humanos e pela natureza. Seja em uma fachada coberta de vegetação ou na imagem de um ícone famoso em processo de desaparecimento, França deixa espaço para a interpretação e a emoção. Ele lança questões sobre o tempo e a morte prematura, lares transformados em ruínas e a noção do senso comum sobre estas ações transformadoras. Ele fotografa a uma certa distância para fazer o espectador se sentir como um voyeur, com acesso apenas às informações contidas nas fotografias, como se todo o resto tivesse já se desintegrado."
- Out/2011
Frances Jakubek
Diretora Associada do Griffin Museum of Photography, em Winchester, Massachusetts, EUA.
Tradução: Carolina Alfaro de Carvalho e André França.
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"André França retoma um tipo específico de
natureza morta, a vanitas, uma variedade de natureza morta alegórica
na qual os objetos representados aludem à efemeridade da vida
humana e das coisas materiais. A denominação remete ao
célebre versículo latino de Eclesiastes, “vanitas
vanitatum, et omnia vanitas” que, em tradução
livre, significa “vaidade das vaidades, é tudo vaidade”.
Em geral, a vanitas apresenta relógios, livros, jóias,
moedas e outros objetos evocativos dos valores transitórios
dos homens. Tradicionalmente, a introdução de uma
caveira remete, de modo explícito, para a idéia da
morte ou memento mori (“lembra-te que morrerás”),
reforçando a finitude da nossa existência ante toda e
qualquer preocupação."
- Jul/2010
Alejandra Hernández Muñoz
Professora de História da Arte na EBA/Universidade Federal da Bahia.
Leia o texto completo sobre a série Vanishing (2010).
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"Utilizando um
termo celebrizado por Barthes, diria que o punctum dessas fotografias
está em seu uso peculiar da figura humana. Tal afirmação
pode causar estranheza: afinal, é óbvio que não
há ninguém nessas fotos, que são todas registros
de espaços vazios, casas velhas, lugares abandonados. Mas
também é óbvio que ali, onde não está
ninguém, já esteve alguém: alguém entrou
por uma porta, exausto ao fim de uma jornada de trabalho; alguém
se debruçou em uma janela, observando casualmente o movimento
dos passantes; alguém se sentou em um sofá e, noite
adentro, esperou ansioso. Há o que sorriu, o que temeu, a que
desejou, a que sentiu calor, os que celebraram, os que mentiram e os
que guardaram segredo: todos estão aqui, nessas fotografias, e
exibem aquilo que restará de todos nós no futuro:
alguns vestígios erráticos, palavras semilegíveis
em um palimpsesto caótico e o esboço de narrativas
incompletas."
- Abr/2008
Antonio Marcos Pereira
Crítico de literatura e Professor da Universidade Federal da Bahia.
Texto sobre a série Houses and Time (2004).