Sobre trabalhos de André França



A Respeito da Existência... _________________________________ [English]

As imagens de André França remetem à existência, à relação com o espaço e à percepção do transeunte. Suas séries são permeadas por uma consciência da separação no tempo e no espaço; as fotografias provocam uma sensação de realidade fugaz e abordam a natureza temporal de nossas vidas. Deparamo-nos com um tipo de fotografia muito direta, que França já descreveu como “um pequeno redemoinho de tempo aprisionado”. A memória é um sentido efêmero e as imagens nos transportam de volta para um tempo, não para confirmar algo mas como um lembrete daquilo que não é verdadeiro.

Nunca nos confrontamos com rostos, somente com os vestígios deixados por humanos e pela natureza. Seja em uma fachada coberta de vegetação ou na imagem de um ícone famoso em processo de desaparecimento, França deixa espaço para a interpretação e a emoção. Ele lança questões sobre o tempo e a morte prematura, lares transformados em ruínas e a noção do senso comum sobre estas ações transformadoras. Ele fotografa a uma certa distância para fazer o espectador se sentir como um voyeur, com acesso apenas às informações contidas nas fotografias, como se todo o resto tivesse já se desintegrado.
[Out/2011]

Frances Jakubek
Diretora Associada do Griffin Museum of Photography, em Winchester, Massachusetts, EUA.

[Tradução do inglês: Carolina Alfaro de Carvalho]



Sonhos Esmaecidos _____________________________________ [English]

Um tempo atrás, fui a uma exposição no Annenberg Space for Photography, Beauty CULTure, em Los Angeles, uma cidade e uma cultura renomadas pelas belas mulheres, sejam elas reais ou retocadas. A exposição me fez pensar no trabalho de André França, um fotógrafo brasileiro que criou um projeto chamado Vanishing. À primeira vista, suas fotografias são perturbadoras – imagens de mulheres aparentemente largadas, traumatizadas e neutralizadas, deixadas sem proteção e identificação. Porém, ao mesmo tempo, há uma beleza nesses totens, congelados no tempo e desaparecendo.

Como mulher, eu interpreto essa obra de diversas maneiras. Para mim, é sobre perda, sobre se tornar invisível, sobre nossa cultura centrada na juventude e o desejo de reverter o tempo. Na infância, essas bonecas eram modelos para a minha futura feminilidade adulta, oferecendo ideais de moda e beleza, e, ao olhar as imagens de André, sinto que esses totens estão sumindo, congelados no tempo e inacessíveis à interação futura, como se fosse hora de nos afastarmos desses símbolos inalcançáveis da perfeição.

Porém, de modo mais importante, a obra também me lembra aquelas que se perderam devido à negligência, ao abuso e ao homicídio. O trabalho é uma poderosa declaração sobre a falta de reverência pelas mulheres em todo o mundo. As fotografias revelam mulheres simplesmente como objetos a serem descartados e dispensados, sem nomes nem rostos, afastados e voltados para baixo. Esta obra provoca um importante debate sobre poder, sexo e controle.

Apresento todas estas interpretações da obra porque André não tem uma declaração sobre o projeto, já que ele prefere que o espectador contribua com suas próprias reações às fotografias. Vanishing me faz ansiar por uma onda de calor, por um derretimento e a libertação dessas almas aprisionadas, mas também me faz querer trabalhar com mais afinco para proteger e honrar as mulheres que não têm voz.
[Fev/2013]

Aline Smithson
Editora de Lenscratch, Curadora e Fotógrafa, Los Angeles, EUA.

Texto sobre a série Vanishing (2010).

[Tradução do inglês: Carolina Alfaro de Carvalho]



André França retoma um tipo específico de natureza morta, a vanitas, uma variedade de natureza morta alegórica na qual os objetos representados aludem à efemeridade da vida humana e das coisas materiais. A denominação remete ao célebre versículo latino de Eclesiastes, “vanitas vanitatum, et omnia vanitas” que, em tradução livre, significa “vaidade das vaidades, é tudo vaidade”. Em geral, a vanitas apresenta relógios, livros, jóias, moedas e outros objetos evocativos dos valores transitórios dos homens. Tradicionalmente, a introdução de uma caveira remete, de modo explícito, para a idéia da morte ou memento mori (“lembra-te que morrerás”), reforçando a finitude da nossa existência ante toda e qualquer preocupação.
[Jul/2010]

Alejandra Hernández Muñoz
Crítica, curadora e professora de História da Arte da EBA/UFBA.

Leia o texto completo sobre a série Vanishing (2010).



Utilizando um termo celebrizado por Barthes, diria que o punctum dessas fotografias está em seu uso peculiar da figura humana. Tal afirmação pode causar estranheza: afinal, é óbvio que não há ninguém nessas fotos, que são todas registros de espaços vazios, casas velhas, lugares abandonados. Mas também é óbvio que ali, onde não está ninguém, já esteve alguém: alguém entrou por uma porta, exausto ao fim de uma jornada de trabalho; alguém se debruçou em uma janela, observando casualmente o movimento dos passantes; alguém se sentou em um sofá e, noite adentro, esperou ansioso. Há o que sorriu, o que temeu, a que desejou, a que sentiu calor, os que celebraram, os que mentiram e os que guardaram segredo: todos estão aqui, nessas fotografias, e exibem aquilo que restará de todos nós no futuro: alguns vestígios erráticos, palavras semilegíveis em um palimpsesto caótico e o esboço de narrativas incompletas.
[Abr/2008]

Antonio Marcos Pereira
Crítico de literatura e Professor da Universidade Federal da Bahia.

Texto sobre a série Houses and Time (2004).





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